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“Nada é impossível”: sem os braços, egípcio joga tênis de mesa com a boca

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Ibrahim Hamadtou se prepara para sacar. Pega a bolinha com os dedos do pé direito e a levanta acima da cabeça. Quando a bolinha começa a cair, o egípcio gira o pescoço furiosamente e desfere o golpe com a raquete que segura pela boca. Ibrahim não tem os dois braços. É assim que joga depois de ter sido atingido por um trem quando tinha 10 anos e brincava distraído. E foi assim que chegou às Paralimpíadas do Rio aos 43 anos.

Seus vídeos viralizaram na internet e impressionam. Mesmo sem braços ele abraçou o mundo. Costuma ser convidado para partidas de exibição contra os melhores atletas. E quis um capricho do sorteio das chaves do torneio da Rio 2016 que outro fenômeno da web fosse o seu adversário da estreia, nesta quinta-feira, no Riocentro: o britânico David Wetherill, que se apoia sobre muletas por ter nascido com uma deficiência nas pernas chamada Displasia Epifisária Múltipla. Ele virou um fenômeno na internet depois de se jogar no chão para marcar um ponto em uma partida dos Jogos de Londres 2012. A Federação Internacional de Tênis de Mesa promoveu a jogo como o “duelo das sensações virais”. Ambos fazem parte da classe 6, que enquadra os atletas com maior nível de dificuldade.

O britânico venceu facilmente por 3 sets a 0, parciais de 11/5, 11/7 e 11/5. Mas o resultado era o que menos importava para Ibrahim. Nesta sexta ele volta a jogar, desta vez contra o alemão Thomas Rau, às 19h20. Sem saber falar inglês, precisou de seu treinador, Hossameldin El Shourbry, também fosse o seu intérprete.

egípcio, Ibrahim Hamadtou, tênis de mesa (Foto: Divulgação/ITTF)Descrição da imagem: Pés de Ibrahim Hamadtou. O direito pega a bolinha de tênis de mesa. O outro está calçado com um tênis (Foto: Divulgação/ITTF)

 

- Joguei contra um campeão, como um campeão. Estou muito feliz de estar aqui, muitas pessoas estão me vendo. O povo brasileiro ama esportes – disse.

O treinador reconhece que a vitória não é o objetivo principal. Dentre os 276 atletas da Paralimpíada do Rio com diferentes tipos de deficiência, Ibrahim é o único sem os dois braços. Assim ele foi campeão de seu país e segundo melhor da África, o que lhe garantiu a vaga na Paralimpíada.

Descrição da imagem: Ibrahim Hamadtou prestes a sacar a bolinha de tênis de mesa com a raquete na boca (Foto: ITTF)Descrição da imagem: Ibrahim Hamadtou prestes a sacar a bolinha de tênis de mesa com a raquete na boca (Foto: ITTF)

O acidente deprimiu o pequeno Ibrahim. Se trancou em casa por três anos até seu ex-treinador, Isac, já falecido, tê-lo tirado de casa. Em sua cidade, Kafr Saad, só era possível jogar futebol e tênis de mesa. No primeiro havia o perigo de cair sem ter como se apoiar. Encarou a modalidade que o projetou como um desafio. Precisou de muita insistência até descobrir a melhor forma de empunhar a raquete. Tentou com as axilas, e não deu. Pensou em outras maneiras, mas a única forma viável era através da boca. Deu certo. Recuperou a estima e voltou a estudar.

Da depressão veio a apoio das pessoas ao redor, boquiabertas com sua performance. Se casou e sua esposa lhe deu três filhos. O governo do Egito lhe deu casa e dinheiro. Segundo seu treinador, Ibrahim tem uma rotina quase independente. Come e atende o celular com os pés. Claro que precisa de ajuda. No intervalo dos sets, por exemplo, é Hossameldin quem lhe dá água e enxuga o seu suor.

Descrição da imagem: Ibrahim Hamadtou tem seu suor secado pelo treinador Hossameldin El Shourbry no intervalo da partida (Foto: ITTF)Descrição da imagem: Ibrahim Hamadtou tem seu suor secado pelo treinador Hossameldin El Shourbry no intervalo da partida (Foto: ITTF)

Ibrahim colhe o resultado da própria inspiração. Dois garotos que também perderam os braços o procuraram e agora são treinados por ele no Egito. Certa vez, declarou à CNN: “Eu acredito que nada é impossível enquanto você trabalha duro”. Esta é a mensagem que eu gostaria de enviar às pessoas”. Palavras corroboradas pela brasileira Bruna Alexandre, número 3 do mundo na classe 10, que não tem o braço direito.

- Ele faz o impossível. Nenhum atleta do mundo faz isso. Tem que ter muita força de vontade. Não é fácil chegar em uma Paralimpíada. E ele ainda ganha de uns caras bons – disse a brasileira, que nesta quinta estreou com uma fácil vitória sobre a australiana Andrea McDonell por 3 sets a 0, e nesta sexta enfrenta a chinesa e líder do ranking mundial, Qian Yang, às 13h40, pelo primeiro lugar da chave.

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